No terceiro ano de casamento, quando o irmão mais velho de Ethan Soares faleceu, Luiza Mello pediu o divórcio. Ethan franziu a testa, com uma expressão de pura incompreensão: — Só porque eu levei um tapa para proteger a Gabi? Gabi? Ele a chamava de forma tão íntima. Mas Gabriela Lopes era, claramente, a esposa de seu irmão mais velho. Luiza puxou os lábios num sorriso frio: — Sim, exatamente por isso. Como se fosse possível que um casamento fosse destruído por algo tão simples. A marca vermelha daquele tapa, dada no hospital, ainda era visível no rosto marcante de Ethan, intensificando sua expressão séria. Naquele momento, Ethan protegeu Gabriela de uma forma tão evidente que até a família Soares ficou surpresa. Todos, menos Luiza. Ela não demonstrou nem um pingo de surpresa. Três dias antes, era o aniversário de casamento de Ethan e Luiza. Ela havia preparado uma surpresa e pegado um voo para a cidade onde ele estava a trabalho. Porém, ao chegar, ouviu por acaso uma conversa entre ele e dois amigos. — Ethan, não me leve a mal, mas fugir todo ano na data do seu aniversário de casamento não é certo. Você está sendo injusto com o esforço e a dedicação da Luiza. O homem, normalmente tão elegante e sereno, tinha nos olhos um traço de tristeza: — Você acha que eu quero isso? Se eu não fizesse isso... Ela jamais acreditaria que, nesses anos todos, eu nunca me envolvi de verdade com a Luiza. — Ela? — O amigo, que parecia defender Luiza, demorou um segundo para entender, mas logo sua voz ganhou um tom de irritação e sarcasmo. — Tá falando da Gabriela? Ethan, você tá maluco? Vai esperar até a barriga da Gabriela ficar enorme na segunda gravidez pra finalmente cair na real? Mudando o tom, ele continuou: — E outra, você não tem medo de o Gustavo aparecer para te cobrar essa palhaçada? — Ele não vai. — Ethan acariciou os dedos, distraído. — Desde que me casei com a Luiza, os dois brigaram feio. Faz três anos que nem se falam e até se bloquearam no celular. Do lado de fora da sala, Luiza ouviu tudo. Apesar de manter a calma enquanto saía com passos firmes, seus dedos, ao lado do corpo, tremiam levemente. Ela sabia que Ethan tinha tido alguém especial em sua vida. Procurou por muitas respostas, mas ninguém jamais lhe disse quem era essa pessoa. Ela havia cogitado várias possibilidades, mas nunca imaginou que sua rival fosse Gabriela. E o pior: durante três anos, ela respeitou Gabriela como sua cunhada. Aquilo era humilhante demais. Ao sair do clube, uma chuva torrencial caía. Luiza, indiferente, deixou-se molhar completamente, como se não sentisse nada. Ela pegou um voo noturno de volta para Cidade A e, assim que chegou em casa, adoeceu. Ficou de cama por dois dias com febre alta e só começou a melhorar hoje. Mas, assim que conseguiu se levantar, recebeu a notícia de que Antônio Soares, irmão mais velho de Ethan, havia sofrido um acidente. Sete dias depois, o funeral de Antônio foi realizado em Cidade A. Nos últimos dias, Luiza mal dormiu duas ou três horas por noite na mansão da família Soares. Após o funeral, ao sair do cemitério, ela estava tão exausta que parecia que seu corpo andava à frente enquanto sua alma ficava para trás. O motorista já a esperava com o carro na entrada. Assim que entrou, Luiza fechou os olhos: — Joaquim, me leve para casa. — Não vai voltar para a Mansão dos Soares? — Não, acabou para mim. O funeral tinha terminado, mas os problemas da família Soares estavam longe de acabar. Antônio, o primogênito, sempre foi tratado como o centro do universo. Desta vez, sua morte foi resultado de um salto de paraquedas, forçado por Gabriela. O equipamento apresentou falha e ele caiu de uma altura fatal. Quando chegou ao hospital, não havia mais o que fazer. Os médicos não tentaram reanimá-lo, apenas prepararam seu corpo para o velório. A raiva da família Soares contra Gabriela ainda estava em ebulição. Luiza não tinha interesse em assistir a Ethan proteger outra mulher. Ela tinha suas próprias prioridades agora. Mas, assim que o carro começou a se mover, a porta de trás foi aberta de repente. Ethan estava do lado de fora, vestindo um terno preto sob medida, com sua postura alta e elegante. Seu rosto, normalmente impecável, carregava uma expressão rara de hesitação: — Luiza, você está indo para casa? — Sim. Mal Luiza respondeu, percebeu com o canto dos olhos que Gabriela se aproximava ao lado de Ethan, acompanhada por um garotinho. Era Michel Soares, filho de Gabriela e Antônio, um menino de quatro anos, gorduchinho e fofo. Antes que Luiza pudesse dizer qualquer coisa, Michel, com agilidade, subiu no carro, como se fosse a coisa mais natural do mundo, e disse sem cerimônia: — Luiza, leva eu e a mamãe pra casa, por favor! Luiza franziu levemente a testa e olhou para Ethan, buscando uma explicação. Ethan apertou os lábios e respondeu: — Meus pais ainda estão muito irritados. Vou deixar Gabi e Michel ficarem na nossa casa por um tempo. Como se temesse que ela recusasse, ele acrescentou: — Você quer ter filhos, né? Pode começar praticando com Michel. Luiza quase riu. Mas, considerando que estavam no cemitério, achou que não seria apropriado. Ethan estava deixando Gabriela e o filho dela em sua casa, enquanto ele voltava sozinho para a Mansão dos Soares para enfrentar a ira dos pais. Até que ele tinha coragem. Quando chegaram em casa, parecia que Ethan já havia avisado. A empregada Maia tinha preparado o quarto de hóspedes. Luiza ficou aliviada. Após tomar banho, desabou na cama e dormiu profundamente. Quando acordou, já eram nove da noite. Assim que pegou o celular, recebeu uma ligação de sua amiga. — O acordo de divórcio está pronto. Quer que eu envie para você dar uma olhada? — Obrigada, Lilian. — Ainda com a voz sonolenta, Luiza respondeu suavemente. — Não precisa me enviar. Só mande alguém trazer para mim. — Está com tanta pressa assim? Tem certeza disso? Lilian Martin, uma advogada experiente, já havia lidado com muitos casos e temia que Luiza estivesse agindo por impulso: — Ethan pode não ser o marido ideal, mas, de certa forma... Luiza acendeu a luz, sentou-se na cama e, com a mente mais clara, interrompeu: — Eu já decidi, Lilian. O Ethan se masturba vendo foto de outra mulher.
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No terceiro ano de casamento, quando o irmão mais velho de Ethan Soares faleceu, Luiza Mello pediu o divórcio. Ethan franziu a testa, com uma expressão de pura incompreensão: — Só porque eu levei um tapa para proteger a Gabi? Gabi? Ele a chamava de forma tão íntima. Mas Gabriela Lopes era, claramente, a esposa de seu irmão mais velho. Luiza puxou os lábios num sorriso frio: — Sim, exatamente por isso. Como se fosse possível que um casamento fosse destruído por algo tão simples. A marca vermelha daquele tapa, dada no hospital, ainda era visível no rosto marcante de Ethan, intensificando sua expressão séria. Naquele momento, Ethan protegeu Gabriela de uma forma tão evidente que até a família Soares ficou surpresa. Todos, menos Luiza. Ela não demonstrou nem um pingo de surpresa. Três dias antes, era o aniversário de casamento de Ethan e Luiza. Ela havia preparado uma surpresa e pegado um voo para a cidade onde ele estava a trabalho. Porém, ao chegar, ouviu por acaso uma conversa entre ele e dois amigos. — Ethan, não me leve a mal, mas fugir todo ano na data do seu aniversário de casamento não é certo. Você está sendo injusto com o esforço e a dedicação da Luiza. O homem, normalmente tão elegante e sereno, tinha nos olhos um traço de tristeza: — Você acha que eu quero isso? Se eu não fizesse isso... Ela jamais acreditaria que, nesses anos todos, eu nunca me envolvi de verdade com a Luiza. — Ela? — O amigo, que parecia defender Luiza, demorou um segundo para entender, mas logo sua voz ganhou um tom de irritação e sarcasmo. — Tá falando da Gabriela? Ethan, você tá maluco? Vai esperar até a barriga da Gabriela ficar enorme na segunda gravidez pra finalmente cair na real? Mudando o tom, ele continuou: — E outra, você não tem medo de o Gustavo aparecer para te cobrar essa palhaçada? — Ele não vai. — Ethan acariciou os dedos, distraído. — Desde que me casei com a Luiza, os dois brigaram feio. Faz três anos que nem se falam e até se bloquearam no celular. Do lado de fora da sala, Luiza ouviu tudo. Apesar de manter a calma enquanto saía com passos firmes, seus dedos, ao lado do corpo, tremiam levemente. Ela sabia que Ethan tinha tido alguém especial em sua vida. Procurou por muitas respostas, mas ninguém jamais lhe disse quem era essa pessoa. Ela havia cogitado várias possibilidades, mas nunca imaginou que sua rival fosse Gabriela. E o pior: durante três anos, ela respeitou Gabriela como sua cunhada. Aquilo era humilhante demais. Ao sair do clube, uma chuva torrencial caía. Luiza, indiferente, deixou-se molhar completamente, como se não sentisse nada. Ela pegou um voo noturno de volta para Cidade A e, assim que chegou em casa, adoeceu. Ficou de cama por dois dias com febre alta e só começou a melhorar hoje. Mas, assim que conseguiu se levantar, recebeu a notícia de que Antônio Soares, irmão mais velho de Ethan, havia sofrido um acidente. Sete dias depois, o funeral de Antônio foi realizado em Cidade A. Nos últimos dias, Luiza mal dormiu duas ou três horas por noite na mansão da família Soares. Após o funeral, ao sair do cemitério, ela estava tão exausta que parecia que seu corpo andava à frente enquanto sua alma ficava para trás. O motorista já a esperava com o carro na entrada. Assim que entrou, Luiza fechou os olhos: — Joaquim, me leve para casa. — Não vai voltar para a Mansão dos Soares? — Não, acabou para mim. O funeral tinha terminado, mas os problemas da família Soares estavam longe de acabar. Antônio, o primogênito, sempre foi tratado como o centro do universo. Desta vez, sua morte foi resultado de um salto de paraquedas, forçado por Gabriela. O equipamento apresentou falha e ele caiu de uma altura fatal. Quando chegou ao hospital, não havia mais o que fazer. Os médicos não tentaram reanimá-lo, apenas prepararam seu corpo para o velório. A raiva da família Soares contra Gabriela ainda estava em ebulição. Luiza não tinha interesse em assistir a Ethan proteger outra mulher. Ela tinha suas próprias prioridades agora. Mas, assim que o carro começou a se mover, a porta de trás foi aberta de repente. Ethan estava do lado de fora, vestindo um terno preto sob medida, com sua postura alta e elegante. Seu rosto, normalmente impecável, carregava uma expressão rara de hesitação: — Luiza, você está indo para casa? — Sim. Mal Luiza respondeu, percebeu com o canto dos olhos que Gabriela se aproximava ao lado de Ethan, acompanhada por um garotinho. Era Michel Soares, filho de Gabriela e Antônio, um menino de quatro anos, gorduchinho e fofo. Antes que Luiza pudesse dizer qualquer coisa, Michel, com agilidade, subiu no carro, como se fosse a coisa mais natural do mundo, e disse sem cerimônia: — Luiza, leva eu e a mamãe pra casa, por favor! Luiza franziu levemente a testa e olhou para Ethan, buscando uma explicação. Ethan apertou os lábios e respondeu: — Meus pais ainda estão muito irritados. Vou deixar Gabi e Michel ficarem na nossa casa por um tempo. Como se temesse que ela recusasse, ele acrescentou: — Você quer ter filhos, né? Pode começar praticando com Michel. Luiza quase riu. Mas, considerando que estavam no cemitério, achou que não seria apropriado. Ethan estava deixando Gabriela e o filho dela em sua casa, enquanto ele voltava sozinho para a Mansão dos Soares para enfrentar a ira dos pais. Até que ele tinha coragem. Quando chegaram em casa, parecia que Ethan já havia avisado. A empregada Maia tinha preparado o quarto de hóspedes. Luiza ficou aliviada. Após tomar banho, desabou na cama e dormiu profundamente. Quando acordou, já eram nove da noite. Assim que pegou o celular, recebeu uma ligação de sua amiga. — O acordo de divórcio está pronto. Quer que eu envie para você dar uma olhada? — Obrigada, Lilian. — Ainda com a voz sonolenta, Luiza respondeu suavemente. — Não precisa me enviar. Só mande alguém trazer para mim. — Está com tanta pressa assim? Tem certeza disso? Lilian Martin, uma advogada experiente, já havia lidado com muitos casos e temia que Luiza estivesse agindo por impulso: — Ethan pode não ser o marido ideal, mas, de certa forma... Luiza acendeu a luz, sentou-se na cama e, com a mente mais clara, interrompeu: — Eu já decidi, Lilian. O Ethan se masturba vendo foto de outra mulher.
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Quando Ivone saiu da delegacia, já era madrugada avançada. Do lado de fora, nevava sem parar. Os poucos pedestres que passavam pela rua olhavam, curiosos, para aquela mulher de rosto marcado por hematomas arroxeados, cabelo emaranhado e passos mancos. Mas Ivone simplesmente ignorava os olhares e os comentários murmurados. Ela arrastava as pernas pesadas, caminhando devagar, de cabeça baixa, com a expressão vazia, enquanto encarava a tela estilhaçada do celular. Ela tocava, com os dedos cheios de pequenos cortes e sangue seco, a função de discagem, e digitava um número. Como era de se esperar, assim como na chamada de emergência que ela tinha feito, desesperada, enquanto apanhava, ninguém atendeu. Um floco de neve grudou nos cílios de Ivone. Ela piscou, e a água gelada derreteu direto dentro dos olhos. — Heh. — Ivone deixou escapar um sorriso de escárnio. Ela estava realmente em frangalhos. No instante em que a mão dela perdeu as forças e começou a descer, a chamada finalmente foi atendida no último segundo. — O que foi? A voz masculina, grave e levemente rouca, soou fria do outro lado da linha. A mão que apertava o celular enrijeceu de repente. O rosto de Ivone se contraiu num misto de surpresa e incredulidade: — Fabiano… — Sr. Fabiano, a Srta. Maia está procurando o senhor. Antes que Ivone conseguisse terminar a frase, a voz do assistente de Fabiano, Rui, apareceu do outro lado. Em seguida, Ivone ouviu Fabiano dizer, num tom indiferente: — Eu vou desligar primeiro. O que ela ainda teria para dizer morreu de vez, engolido pelo sinal de linha ocupada. Na esquina deserta, sob um poste altíssimo, a neve caía sem trégua sobre o cabelo de Ivone. O corpo magro dela tremia levemente. De repente, um casaco ainda quente, com cheiro de rua e de gente, caiu sobre os ombros dela. Ivone se sobressaltou e ergueu o olhar. Quem tinha chegado era o chefe dela, editor Edson. Edson a encarou de cima a baixo, com um olhar pesado, carregado de indignação: — Quem foi o desgraçado que te deixou desse jeito? O hálito de Ivone saiu em nuvens brancas. Ela balançou a cabeça e respondeu, firme: — Quando eles me bateram, eu arranquei alguns fios de cabelo deles. Minhas unhas também ficaram cheias de pele deles. Quando a polícia coletar o DNA, logo, logo eles vão descobrir quem foi. Por um instante, Edson ficou sem reação. Mesmo espancada daquele jeito, Ivone tinha mantido a cabeça fria o suficiente para garantir evidências biológicas dos agressores. Aquela Ivone, pensou ele, justificava bem a admiração que ele sentia por ela. — A gente vai até o fim com isso, eu te prometo. Mas a essa hora, o melhor é eu te levar pra casa. Aquele ponto da cidade era péssimo pra conseguir táxi. Ivone forçou um meio sorriso e entrou no carro de Edson. — Edson, desculpa incomodar. — Incomodar o quê, Ivone? Você é minha funcionária. Você apanha na rua e eu vou fingir que não é problema meu? E, pra completar, hoje à noite todo mundo saiu pra trabalhar. Só sobrou eu na redação. Edson girou o volante e continuou, como quem joga conversa fora: — A ex‑namorada do Fabiano voltou pro país. Dizem que ele foi pessoalmente buscar ela no aeroporto. A equipe inteira correu pra tentar garantir a primeira foto exclusiva. Os olhos de Ivone, já vermelhos de cansaço e rompidos de sangue, congelaram de repente. A cabeça dela pareceu explodir por dentro. Na mesma hora, ela entendeu: enquanto ela era arrastada para um beco, chutada e esmurrada, ligando para ele em desespero, Fabiano estava do lado de outra mulher. Edson, alheio ao impacto das próprias palavras, continuou falando sem perceber que o semblante dela tinha ficado cada vez pior. Ivone abaixou os olhos e encarou as pontas dos dedos manchadas de sangue. Em seguida, ela apertou com força o dorso da própria mão, já em carne viva. Ninguém fazia ideia de que ela era esposa de Fabiano. … Ivone não deixou que Edson a deixasse na porta de casa. Ela pediu para ele parar num condomínio mais próximo e, de lá, chamou um carro de aplicativo até o condomínio Vida Doce. Quando Ivone finalmente entrou em casa, ela se abaixou no hall de entrada para trocar de sapatos. A empregada, Dulce, ouviu o barulho, veio ver quem era e se assustou ao dar de cara com aquela cena. Ela correu até Ivone. — Senhora, o que foi que aconteceu? Como é que a senhora ficou desse jeito? — Dulce perguntou, apavorada. Dulce tentou segurar Ivone pelos braços para ajudá‑la, mas esbarrou sem querer nos machucados. Ivone não reagiu. Ela parecia completamente anestesiada, como se o corpo tivesse desligado. Os olhos dela estavam vazios, sem um mínimo brilho. — Eu apanhei durante uma reportagem de infiltração, fazendo trabalho de repórter. — Explicou Ivone, num tom leve demais para quem tinha sido espancada. Ivone comentava tudo como se não fosse grande coisa, mas Dulce ficava com o coração na boca a cada frase que ela dizia. Ela já sabia, fazia tempo, que trabalhar como repórter em matérias de denúncia social era perigoso, só não tinha imaginado que fosse um tipo de perigo que chegava tão perto da morte. Naquele momento, Dulce se lembrou de como Paula, avó de Fabiano, tinha insistido para que Ivone largasse aquele emprego. Talvez a Paula não estivesse tão errada assim. Dulce percebeu que Ivone mantinha o olhar preso no móvel dos sapatos. Dulce não teve coragem de encarar o rosto dela e ficou com a expressão carregada, cheia de coisas que ela não ousava dizer: — O Sr. Fabiano… ainda não voltou. Disseram que a Maia chegou de volta ao país. Ivone abaixou a cabeça. Algumas mechas soltas de cabelo cobriram metade do rosto dela. O olhar ficou impossível de decifrar, mas Dulce sentiu que ela estava sofrendo. — Talvez ele… — Dulce tentou arrumar alguma explicação. Ivone ergueu a mão e cortou a frase pela metade: — Eu vou subir pra tomar banho. Leva a caixa de primeiros socorros pro meu quarto. Quando Dulce viu o jeito trôpego com que Ivone subiu as escadas, ela soltou um suspiro mudo. Mesmo assim, ela fez o que Ivone tinha pedido e foi procurar a caixa de remédios. Ao passar em frente à suíte principal, Dulce olhou para dentro, só por reflexo. Como ela já imaginava, Ivone não estava ali. Ivone estava no quarto ao lado. Quem poderia imaginar que, depois de três anos de casamento, Ivone e Fabiano ainda dormiam em quartos separados? O vapor tomou conta do banheiro. Diante do espelho, Ivone encarou os hematomas enormes e roxos espalhados pelo próprio corpo, tão feios que chegavam a ser assustadores. Os lábios dela começaram a tremer. Ela agarrou a barra da blusa com os dedos duros e trêmulos e, com um puxão brusco, rasgou o tecido, jogando tudo no lixo. Parecia que ela tinha esgotado as últimas forças. As pernas falharam, e ela escorregou, caindo sentada no chão frio. Pouco depois, um choro baixo começou a ecoar de dentro do banheiro. Quando Dulce parou para prestar atenção, do lado de fora, tudo o que ela conseguiu ouvir foi o barulho forte da água caindo. Depois do banho, Ivone não deixou que Dulce passasse pomada nos machucados. Ela se sentou no sofá, pegou o tubo e espalhou o medicamento de qualquer jeito sobre as áreas roxas, depois se jogou na cama. Assim que fechou os olhos, as imagens da agressão voltaram à cabeça dela como um filme, junto com a risada cruel daqueles homens. Os ossos dela pareciam doer por dentro. Ivone se virou de lado, abriu a gaveta do criado‑mudo e tateou até o fundo, até os dedos encontrarem um frasco de comprimidos. Ela abriu a tampa, derrubou um deles na palma da mão e jogou o comprimido direto na boca, engolindo seco, sem nem beber água. Com a ajuda do calmante para dormir, Ivone apagou rápido. Mas, mesmo dormindo, ela continuou com as sobrancelhas franzidas. O suor começou a brotar na testa, e os dedos que agarravam a ponta do lençol ficaram brancos de tanta força, tremendo sem parar. — Me ajuda… — Murmurou ela. Afundada no pesadelo, Ivone ficou com o rosto completamente lívido. O corpo magro dela não parava de tremer, e as lágrimas escapavam pelos cantos dos olhos fechados. O quarto escuro, amplo e vazio não devolveu nenhuma resposta. … Ivone só acordou no fim da tarde do dia seguinte. Os hematomas no rosto já tinham desbotado bastante, mas o resto do corpo ainda doía. Quando ela tentou se levantar, quase caiu no chão. Na noite anterior, ainda bem que alguns desconhecidos de bom coração tinham passado por ali e começado a gritar que iam chamar a polícia. Só assim aqueles homens interromperam as agressões e não foram além. Se não fosse por isso, Ivone tinha certeza de que já estaria no céu, reencontrando os pais. Edson tinha dado alguns dias de folga para ela, para que ela pudesse descansar em casa. Ao descer as escadas e passar pela porta da suíte principal, Ivone parou na entrada e lançou um olhar rápido para dentro. A porta estava aberta, igual à noite anterior. Ela não precisou de muito para concluir que Fabiano não tinha voltado pra casa. Dulce tinha preparado um omelete. Ivone se sentou no sofá, começou a massagear de leve o próprio rosto para desinchar e, ao mesmo tempo, desbloqueou o celular para olhar as notícias. Não era à toa que chamavam Fabiano de chefe da família Moraes. A manchete, publicada na noite anterior, ainda estava no topo e bombando. Na foto, a silhueta do homem aparecia alta e firme, recortada contra a noite, como uma árvore enorme fincada na escuridão. Mesmo sendo só uma imagem de costas, alguém vendo não tinha como ignorar a força da presença que ele transmitia. Na cadeira de rodas que ele empurrava, a mulher deixava à mostra apenas a parte de cima das costas. Maia Dias. Ivone fechou a notícia em silêncio, mas, no movimento seguinte, acabou pressionando sem querer uma área inchada do rosto. A região machucada reagiu com um espasmo leve, e ela franziu a testa. Os olhos começaram a arder, ficando cada vez mais vermelhos. "Ivone, você é patética. Três anos… será que você ainda não entendeu o que tem dentro do coração do Fabiano?" Ela falou consigo mesma, por dentro. Em seguida, Ivone se levantou, voltou ao quarto para trocar de roupa e depois foi até o escritório de Fabiano, querendo pegar dois livros para tentar distrair a cabeça. O escritório de Fabiano estava impecavelmente organizado, sem nenhum adorno desnecessário, totalmente diferente do escritório dela, abarrotado de blind boxes e de todo tipo de brinquedo. A gaveta da escrivaninha tinha ficado entreaberta. Uma das janelas do escritório estava meio aberta, e o vento que entrava fazia os papéis dentro da gaveta farfalharem sem parar. De repente, uma folha se soltou e voou para o chão. Ivone foi até lá e se abaixou para pegar o papel. Ela já ia colocar a folha de volta, mas, no instante em que enxergou com clareza o que estava guardado dentro da gaveta, o olhar dela ficou totalmente paralisado. Bem diante dos olhos dela, estava um acordo de divórcio. Quando Ivone encarou o acordo de divórcio dentro da gaveta, ela ficou completamente imóvel, como se tivesse sido congelada. Vários pensamentos passaram rapidamente pela cabeça dela, e um frio repentino tomou conta do peito. Três anos antes, Ivone só tinha conseguido se casar com Fabiano porque contava com o carinho de Paula Moraes. Ivone sabia que Fabiano não a amava. Ele tinha concordado em casar com ela apenas para consolidar a própria posição dentro da família Moraes. Com o voto de Paula a seu favor, ficava muito mais fácil levar adiante as ambições dele. Aquele casamento tinha sido, de certa forma, roubado por Ivone. Ela tinha se jogado, por vontade própria, dentro de um amor de mão única, se iludindo com a possibilidade de que um dia Fabiano acabasse se apaixonando por ela. Ivone tinha superestimado a si mesma. Antes do casamento, Fabiano já não suportava muito a presença dela, depois, os dois passaram a viver como completos estranhos. O divórcio sempre tinha pairado sobre aquela união como uma bomba‑relógio silenciosa. Em três anos, Fabiano nunca tinha mencionado a palavra "divórcio". Por isso, ser pega de surpresa daquele jeito deixou Ivone sem chão. Quanto ao motivo de ser justamente agora, ela já sabia a resposta: Era porque Maia tinha voltado. As palavras em destaque no topo do documento "Acordo de Divórcio" pareciam pregos batidos direto no coração dela. Ivone simplesmente não criou coragem para pegar o papel e ler o que estava escrito. Se não fosse por ela ter esbarrado naquele acordo por acaso, quando Fabiano pretendia entregar aquilo? Ivone não fazia ideia de quanto tempo tinha ficado ali parada. Só quando o barulho de um motor subiu da garagem, acompanhado da voz respeitosa de Dulce dizendo "oi, senhor", era que ela despertou do próprio torpor. Quando Ivone desceu as escadas, Fabiano já tinha entrado em casa. Do lado de fora, ainda nevava. Fabiano tirou o sobretudo preto e comprido e entregou, sem olhar, para o Rui. O terno preto, feito sob medida, deixava o ar dele ainda mais austero, realçando a postura ereta e a frieza contida. A presença do chefe da família Moraes era quase sufocante. Talvez por causa do som dos passos, ele ergueu o rosto na direção da escada. Os óculos sem armação apoiados no nariz deixavam aquele homem ainda mais refinado e distante. Os olhos, da cor de safira, tinham parte do brilho escondida atrás das lentes, mas ainda assim era impossível disfarçar o fascínio que emanava dali, uma espécie de calma enfeitiçante que prendia quem olhasse tempo demais. Ivone se viu caminhando na direção dele sem nem perceber. Só que, como os dois já estavam há treze dias sem se ver e, desde o aborto forçado do filho, um ano antes, o contato entre eles tinha ficado cada vez mais raro, ela sentiu aquele homem à sua frente estranhamente distante. Ivone parou a alguns passos. A imagem do acordo de divórcio na gaveta cruzou a mente dela, e ela abriu a boca para perguntar. O olhar frio de Fabiano varreu o rosto dela, e as sobrancelhas dele se uniram num leve vinco: — A vovó está doente. Volta comigo pra Mansão Grande Venice. A voz grave de Fabiano veio coberta por uma camada de gelo. Depois de dizer isso, ele simplesmente virou as costas e saiu de novo para a área externa. A avó estava doente? O coração de Ivone apertou, e ela esqueceu, por um momento, o assunto do acordo de divórcio. Ela correu até o quarto, pegou um casaco e um par de luvas, cobrindo os machucados no dorso das mãos. Quando ela chegou, quase correndo, até a porta, Fabiano estava de costas, parado sob a marquise da entrada. Ele abaixou a cabeça para acender um cigarro. Ao ouvir a aproximação dos passos, ele virou levemente o rosto. A chama tremeluzente iluminou os olhos dele por um instante, para logo em seguida virar escuridão profunda. Ele era Fabiano, o filho prodígio mais inalcançável de Cidade Uíge. Na época do colégio, ele já estampava sites e matérias como "o homem mais bonito do país, com um QI superior ao de Einstein". O assunto rendeu tanta conversa que chegou a virar trending topic. Mas, logo depois, a família Moraes deu um jeito de apagar tudo. Mesmo durante os dois anos em que ficou cego, Fabiano continuou sendo o objeto de fantasia de metade das mulheres da cidade. O peito de Ivone ardeu de amargura. Ela respirou fundo e foi em direção ao carro. Quando passou ao lado de Fabiano, os passos dela aceleraram sem que ela percebesse. De repente, a mão dele segurou com firmeza o braço dela. Ivone se sobressaltou e, num impulso, levantou o olhar, dando de cara com aqueles olhos que pareciam enxergar direto o que havia dentro dela. Os dedos quentes dele subiram até o queixo dela. Por reflexo, Ivone tentou recuar, mas a mão que segurava o queixo pareceu prever o movimento. Fabiano apertou um pouco mais e deixou o polegar deslizar de leve pelo contorno dos lábios dela: — O que aconteceu com o seu rosto? Ivone, sem saída, teve que erguer um pouco mais a cabeça para se alinhar com o olhar dele. Ela não fazia ideia de que pomada Dulce tinha passado, mas, quando Ivone acordou naquela manhã, os hematomas do rosto já estavam bem mais claros. Com a maquiagem e um pouco de corretivo, os machucados tinham praticamente desaparecido. A própria Dulce tinha comentado, surpresa, que ninguém conseguiria imaginar o estado em que Ivone chegou em casa na noite anterior. Se mal dava para ver os roxos, como foi que ele… O peito de Ivone doeu de novo. — Eu caí ontem trabalhando. Me distraí e tropecei. — Ela respondeu. Nesse ponto, contar que tinha sido espancada já não mudaria nada. Mesmo assim, ela não percebeu que a resposta tinha saído embebida de ressentimento. O tom dela claramente desagradou Fabiano. O dedo dele apertou mais o contorno dos lábios dela, e ele soltou um riso curto: — Você continua a mesma menina imatura de sempre. A porta do carro se fechou, e o ar aquecido envolveu Ivone, dissipando aos poucos o frio que parecia ter se infiltrado até o fundo dos ossos. O carro saiu do condomínio Vida Doce e pegou o caminho em direção à Mansão Grande Venice. Assim que se acomodou no banco, Fabiano começou a cuidar de assuntos de trabalho. — Você acabou de ir no meu escritório? — A voz dele, grave e limpa, soou ao lado dela. O peito de Ivone se apertou. Ela olhou para Fabiano, que continuava com os olhos fixos na tela do notebook. A pergunta parecia ter sido feita no automático, como se ele só quisesse confirmar um detalhe qualquer. Ele provavelmente tinha reparado, ao sair de casa, que a luz do escritório estava acesa. Por isso, ele tinha perguntado. O escritório de Fabiano, em geral, era organizado só pelo Rui. Ele nunca deixava Dulce entrar. Naquele horário, a única pessoa que poderia ter estado ali era Ivone. E Ivone, depois de ter visto o acordo de divórcio, tinha esquecido por completo o motivo original de ter ido ao escritório. — Fui. Eu queria pegar um livro, mas não encontrei o que eu tava procurando. — Respondeu ela. Ivone só conseguia pensar na saúde de Paula. Ela encostou a cabeça no vidro, inquieta, com o coração disparado. O carro seguiu pela cidade em direção à Mansão Grande Venice. Quando Ivone tinha sete anos, ela tinha perdido os pais. Por causa de uma antiga ligação entre a família Marques e a família Moraes, e porque Paula tinha um coração generoso, Paula resolveu acolher Ivone e criá‑la dentro da família Moraes. Entre todos os membros da família Moraes, a pessoa que mais amava Ivone era Paula. Naquele ano, a primeira neve em Cidade Uíge tinha chegado de surpresa, e Paula tinha acabado pegando um resfriado. Quando Ivone entrou na casa, os membros da família Moraes, o médico, o mordomo e alguns empregados estavam reunidos ao redor de Paula, tentando convencê‑la a tomar o remédio. Paula, no entanto, mantinha os dentes cerrados e se recusava a abrir a boca. Assim que ela viu Ivone, o rosto de Paula se iluminou como se tivesse visto uma salvadora: — Ivi! Eles querem me envenenar! — Vó. — Ivone se aproximou às pressas, segurou a mão da idosa e se sentou na beira da cama, falando num tom doce. — Enquanto eu estiver aqui, ninguém vai encostar um dedo na senhora. Se aparecer algum bandido, eu o derrubo com um soco. Agora seja boazinha, toma o remédio primeiro. Eu dou na sua boca, pode ser? Os olhos de Paula ficaram vermelhos de pura birra, mas ela acabou cedendo e tomou o remédio como Ivone mandava. Todos em volta respiraram aliviados. Só Ivone conseguia fazer Paula obedecer sem criar confusão. Parado a certa distância, Fabiano observava. O olhar dele, escuro e profundo, atravessou o sorriso de Ivone como um poço sem fundo. — Que remédio mais amargo! — Paula reclamou, franzindo o rosto todo de uma vez. — Remédio bom é assim mesmo, vó, tem gosto ruim. — Disse Ivone. Ela pegou o copo e fez Paula beber mais um gole de água. Ao ver a expressão chorosa da avó, Ivone apertou de leve a mão dela e balançou, em tom de brincadeira: — Chega, né? A senhora não falou que o remédio tava muito amargo? Antes de subir, eu pedi pro pessoal fazer uma vitamina de banana. Eu vou lá embaixo pegar pra senhora, tá bom? Em um segundo, Paula já tinha mudado de humor de novo, toda manhosa e satisfeita. Quando Ivone voltou do andar de baixo com a vitamina de banana na bandeja e estava quase entrando no quarto, ela ouviu a voz de Paula, lá de dentro: — O noticiário de ontem deu o que falar, hein. Você realmente não desapontou ninguém, meu querido neto. O herdeiro mais brilhante da família! Quando você resolve se mexer, o show é sempre grandioso. Ivone parou na porta, sem entrar. O tom de Fabiano soou um pouco desinteressado: — Vó, não precisa falar comigo desse jeito irônico. A senhora devia se preocupar é com a própria saúde. — A Ivi é a sua esposa! — Paula rebateu. — Aquela tal de Maia, da família Dias, é uma dívida da família Moraes, não sua. A Ivi não deve nada pra ela, e muito menos pra você. Se você for maltratar a Ivi por causa dela, eu não deixo barato! Os dedos de Ivone, que seguravam a bandeja, ficaram gelados. O som dos passos de um empregado subindo as escadas cortou o silêncio e embaralhou os pensamentos dela. Por isso, Ivone não conseguiu ouvir claramente o que Fabiano respondeu. Ela só pegou a frase final de Paula: — Você e a Ivi deviam ter um filho logo. Tudo o que você quer vai acabar vindo parar nas suas mãos. Filho… Uma dor aguda, cortante, tomou conta do corpo inteiro de Ivone, como se alguém tivesse enfiado um punhal direto no coração dela. Numa noite, Fabiano tinha chegado bêbado em casa e, por engano, tinha entrado no quarto de Ivone. Ela nunca esqueceu que, no momento em que ele chegou ao clímax, ele encostou a boca no ouvido dela e chamou ela de "Ivi". Naquela mesma noite, Ivone engravidou do filho de Fabiano. Depois da descoberta, a relação entre eles dois ganhou uma espécie de delicadeza estranha. Ele continuava passando várias noites fora, mas mandou um nutricionista cuidar exclusivamente das refeições dela, três vezes ao dia. Ivone achou que aquele seria o começo da felicidade. Mas, no inverno seguinte, com oito meses de gestação, o coração do bebê parou de bater de repente. O feto morreu dentro dela, e tudo o que restou foi a indução do parto. Com medo de que Ivone desmoronasse, a equipe médica se recusou a deixar que ela visse o bebê. Ivone não teve a chance de se despedir direito, nem de segurar a mãozinha dele pela única vez que seria possível. Por um bom tempo, ninguém ousou pronunciar a palavra "filho" na frente de Ivone. Aquilo se tornou um território proibido no coração dela. Agora, ao ouvir o assunto ser trazido de volta, Ivone sentiu como se tivesse sido jogada dentro de um poço de gelo. O som leve de passos ecoou pela escada. Uma empregada subia do andar de baixo. — Oi, senhora. — A moça cumprimentou. Ivone voltou a si, enxugou discretamente o vermelho nos olhos, ajeitou a bandeja com a vitamina de banana nas mãos e entrou no quarto. A conversa lá dentro cessou de imediato. Assim que viu Ivone, Paula franziu a testa, com uma dor visível no olhar. Se Paula soubesse que Ivone estava subindo, ela não teria tocado no assunto do filho. Paula virou a cabeça na direção de Fabiano, esperando que ele, por iniciativa própria, fosse até a esposa e ficasse ao lado dela. Mas Fabiano continuou ali, duro como um bloco de gelo. Ele lançou um olhar breve, distante, para Ivone e, logo depois, saiu do quarto. … Só quando Paula finalmente adormeceu, Ivone mediu de novo a temperatura da avó. Depois de confirmar que a febre tinha cedido, ela deixou o quarto. Naquela noite, Paula tinha ordenado que Ivone e Fabiano dormissem na Mansão Grande Venice. Ela ainda tinha mandado o mordomo acompanhar pessoalmente Ivone até o pequeno prédio onde ficava o antigo quarto de lua‑de‑mel do casal. O "quarto de lua‑de‑mel" era, na verdade, uma construção separada dentro do terreno da mansão, reservada exclusivamente para os dois. Ivone não fazia ideia de onde Fabiano tinha ido. Desde que ele saiu do quarto de Paula, ele não tinha dado mais sinal de vida. Fabiano nunca tinha sido um homem de obedecer às ordens. Agora que ele já tinha assumido o controle de tudo, ele não precisava mais seguir a vontade de nenhum Moraes. Era bem possível que ele já tivesse ido embora sem olhar para trás. Quando Ivone chegou à porta do quarto, ela lançou um olhar de lado para o mordomo, que tirava o celular do bolso. Ela não pôde deixar de suspirar. — Tio Raul, o senhor devia ir descansar. Já tá tarde. — Disse ela. — Senhora, não posso. Dona Paula pediu que eu tirasse uma foto, pra provar que você entrou no quarto. — Respondeu Raul, sem rodeios. No passado, Raul chamava Ivone de "senhorita". Depois que ela se casou com Fabiano, mesmo sem Fabiano ter reconhecido de fato o papel de esposa, Paula tinha decretado que toda a família Moraes devia tratá‑la como Sra. Moraes ou Dona Ivone. Ficava claro que Paula não confiava em absolutamente nada. Ivone não sabia mais o que dizer. Ela ficou ali, parada na porta, com uma expressão quase de rendição, enquanto Raul tirava duas fotos dela com o celular. Depois de conferir as imagens, Raul assentiu, satisfeito. — Agora sim, posso voltar tranquilo. Desejo uma boa noite pra senhora. — Disse ele, antes de se afastar pelo corredor. Quando Ivone viu as costas do mordomo sumindo na direção da escada, ela soltou o ar devagar. Ainda bem que Fabiano não estava ali. Assim, ela poderia dormir sozinha. Ela fechou a porta com a mão esquerda e, assim que o trinco encaixou, se apoiou na madeira, curvando o corpo enquanto pressionava a perna direita, que tremia de dor. Ela quase não tinha conseguido continuar fingindo normalidade. Na noite anterior, um dos homens que a agrediram tinha acertado a perna direita dela com três chutes. Três. Cada um com força suficiente para quebrar osso. Se tivessem dado mais dois, a perna certamente não teria aguentado. Quando a polícia pegasse aqueles desgraçados, ela faria questão de que alguém acabasse com eles. De repente, a voz de Fabiano cortou a escuridão: — Quer que eu vá aí e te leve no colo? A frase ecoou no quarto mal iluminado, inesperada e fria. Ivone levou um susto. Ela tinha acabado de entrar e ainda não tinha acendido a luz. Ela virou o rosto na direção de onde a voz tinha vindo e, aos poucos, a silhueta dele foi se definindo. As lentes dos óculos refletiram a luz por um segundo. Fabiano estava recostado à lateral da janela aberta, com um cigarro entre os dedos. Ivone o encarou, com uma mistura confusa de surpresa e cansaço. Então ele não tinha ido embora. Ele tinha voltado antes dela e estava ali o tempo todo. Aquilo só podia significar que, naquela noite, os dois dividiriam o mesmo quarto. Em outro momento, Ivone teria sentido o coração disparar, o rosto quente, cheia de pequenas expectativas. Mas, agora, a imagem do acordo de divórcio na gaveta e a certeza de que Maia tinha voltado ao país apagavam qualquer ilusão. Ivone não se deu ao trabalho de acender a luz. Ela engoliu a dor que latejava na perna direita e começou a caminhar, devagar, até o sofá. Se fosse preciso, ela se ajeitaria ali mesmo por uma noite. Amanhã seria outro dia. Mas, antes que ela conseguisse chegar ao sofá, uma mão a puxou com força. O corpo dela perdeu o equilíbrio e foi lançado para frente, caindo direto contra um peito largo e quente que a envolveu por completo. No exato momento em que Ivone tentou se soltar, a mão que apertava a cintura dela se fechou com força. O beijo quente e úmido que o homem deixou na região da orelha arrancou um arrepio instintivo do corpo dela. Desde o Natal do ano anterior, aquela tinha sido a primeira vez que Fabiano voltava a tocá‑la. Em questão de segundos, o mundo de Ivone girou. Ela se viu prensada contra o sofá, completamente envolvida pelo calor da respiração dele. Os beijos profundos e demorados deixaram Ivone sem qualquer defesa possível. — A vovó falou que a gente devia ter um filho. — Disse ele. As palavras caíram sobre Ivone como um balde de água gelada. Ela lembrou, de imediato, do acordo de divórcio dentro da gaveta do escritório e da conversa que tinha escutado de Paula. Ela virou o rosto, fugindo dos lábios dele, e encarou aqueles olhos capazes de enfeitiçar qualquer um. A garganta de Ivone pareceu se encher de agulhas: — Você quer um filho… ou quer o que a avó prometeu pra você em troca desse filho? Fabiano segurou os dois pulsos dela e os prendeu acima da cabeça. Com a outra mão, ele tirou os óculos. Sem a barreira das lentes, os olhos dele ficaram frios e cortantes como os de um predador. Ali estava o verdadeiro Fabiano. — Que diferença faz? Quando você bateu o pé dizendo que queria casar comigo, você já devia saber como seria. — Respondeu ele. O rosto de Ivone perdeu a cor. — Não é, Sra. Moraes? Ou devo chamar de Ivi? — Ele completou. O tom era carregado de uma falsa intimidade, mas o que atravessou Ivone foi pura dor. Um apelido sem nenhum traço de afeto, só de ironia, para ela soava como uma sentença. Fabiano sabia exatamente onde atingir para machucá‑la. Ele soltou um riso baixo, inclinou o corpo e a dominou com facilidade. Quando Fabiano arrancou a blusa dela, o corpo de Ivone se encolheu com violência. O cérebro reagiu antes da razão, jogando de volta as imagens da noite anterior, dos golpes, dos chutes, das mãos arrancando o tecido da roupa dela… Se não fosse pelos desconhecidos que apareceram gritando e ameaçando chamar a polícia, ela sabia muito bem até onde a coisa teria ido. Naquele momento, ela já nem conseguia distinguir direito se o homem por cima dela era Fabiano ou um dos agressores da noite passada. — Não! — Gritou ela. Como uma leoa acuada, Ivone avançou e cravou os dentes no pescoço de Fabiano. Na penumbra do cômodo, ele soltou um gemido rouco. — Então você cresceu mesmo, hein? Teve coragem de me morder? — Murmurou ele. Uma mão grande agarrou o queixo de Ivone. Com a outra, Fabiano arrancou a própria gravata, pronto para amarrar os pulsos dela e conter a resistência. O toque estridente de um toque de celular cortou o ar de repente. A tela iluminou o ambiente com um brilho azulado e recortou, em sombra, as duas figuras no sofá. O aparelho, largado sobre a mesa, vibrou e virou alguns graus, o suficiente para que o visor ficasse totalmente visível para Ivone. [Maia] Era Maia ligando. A distração de Fabiano durou apenas um segundo, mas foi o bastante. Ivone se esgueirou debaixo dele, se afastou como pôde e, com as mãos trêmulas, puxou de volta a roupa aberta, cobrindo às pressas os hematomas enormes e arroxeados que marcavam o corpo todo. Ela arrastou a perna direita dolorida até o canto do sofá e se encolheu ali. A luz do abajur ao lado do sofá acendeu de repente. A gravata pendia frouxa na gola de Fabiano, e dois botões da camisa tinham sido arrancados. O pomo de Adão dele subiu e desceu, denunciando o esforço para recuperar o controle. O celular continuava tocando sem parar. O rosto de Ivone estava lívido, o que deixava o vermelho dos olhos ainda mais gritante. Ela lançou um olhar cortante na direção dele e disse, com um sorriso que não chegava nos olhos: — Sr. Fabiano, você não vai atender a ligação da sua ex‑namorada? Fabiano se endireitou, apoiando o peso nos próprios braços. Ele lançou um olhar gelado para Ivone, encolhida no canto do sofá, depois ele pegou o celular, deslizou o dedo pela tela e atendeu a chamada. Ivone não conseguiu ouvir o que foi dito do outro lado. — Cuidar da sua saúde é o mais importante agora. Qualquer outra coisa, pede pra alguém falar com o Rui. — Respondeu ele. A voz de Fabiano soou suave, paciente, cheia de uma gentileza que ele nunca usava com Ivone. Depois de encerrar a ligação, Fabiano pegou os óculos que tinha largado ali perto. Ele não olhou para Ivone nem por um segundo. Apenas se levantou, ele alcançou o paletó e o colocou no braço. — Você vai atrás da Maia? — Perguntou Ivone, com os olhos completamente vermelhos. Fabiano nem se virou. — Isso não te diz respeito. — Respondeu ele. Ivone apertou a perna direita dolorida e se obrigou a ficar de pé. Enquanto ela encarava aquele homem impecavelmente vestido, tão frio com ela, ela sentiu o coração afundar de vez. — Fabiano! — Chamou ela. Ela tropeçou até ele e o abraçou por trás, enlaçando a cintura dele. Com medo de que ele se desvencilhasse, ela colocou toda a força que ainda tinha nos braços. Cada osso doía. Ao pensar no acordo de divórcio na gaveta, o retorno de Maia, o coração de Fabiano, que ela jamais conseguiria prender… Estava claro que era hora de colocar um ponto final. Ivone fechou os olhos, tomada por uma dor profunda, mas ainda assim zombando de si mesma por dentro. — Quando você casou comigo, você não tinha escolha. Eu só quero ouvir, pela última vez, o que você realmente sente. Os dedos longos de Fabiano seguravam os óculos. Ele abaixou o olhar, observando Ivone com frieza. — Que joguinho você tá querendo inventar agora? — Perguntou ele. — Finge que é a última pergunta que eu vou te fazer. — Disse Ivone, afrouxando devagar os braços. Ela levantou o rosto, encarou Fabiano de frente. Os olhos castanhos, limpos e firmes, não tinham um traço de hesitação quando ela falou, sílaba por sílaba: — Se a avó não tivesse colocado as ações do grupo como moeda de troca, você teria aceitado se casar comigo? No fundo, ela sabia que aquela pergunta nem precisava ser feita. Mas ela se recusava a desistir sem ouvir uma resposta explícita. Aquela era a única chance que ela se permitia. Depois daquela noite, não importava o que Fabiano dissesse, ela não voltaria ao assunto. Fabiano estreitou levemente os olhos, como quem analisava uma peça de xadrez. De repente, ele sorriu. Era um sorriso que não chegou perto dos olhos. — Isso importa? — Retrucou ele. Os olhos escuros dele se cravaram nela, e ele deu um passo à frente. — Naquela época, você bateu o pé em que queria casar comigo e não se importou com mais nada. Agora vem com esse discurso… O que é que você quer? — Perguntou ele. Sem os óculos para suavizar o olhar, os olhos de Fabiano mostraram toda a dureza que escondiam. A pressão que ele exercia com a simples presença parecia esmagar o ar. O frio cortante naquela expressão fez Ivone recuar um passo, sem pensar. Ele segurou a cintura dela com uma só mão, puxando‑a de volta. Ele abaixou a cabeça, prendendo o olhar dela. Depois, o olhar dele desceu até a boca de Ivone, ainda levemente inchada dos beijos de minutos antes. Ele se inclinou, deixando o calor da respiração bater direto no ouvido dela. — Você quer saber o que eu realmente sinto? Eu tenho medo de que você não aguente ouvir. — Murmurou ele. A pressão dos dedos na cintura dela sumiu de repente. Sem o apoio, a perna esquerda de Ivone falhou, e ela despencou sentada no chão. Ela olhou, perdida, para a direção em que ele tinha ido, e o corpo inteiro começou a tremer sem controle. Um sedã preto parou diante do portão principal da Mansão Grande Venice. Fabiano entrou no carro, arrancou a gravata frouxa e a jogou de lado. As pernas longas ficaram abertas, num gesto relaxado, mas tudo nele exalava tensão. O carro estava aquecido, mas, no instante em que ele entrou, o ar pareceu congelar. Rui lançou um olhar rápido pelo retrovisor, depois voltou a atenção para a frente e ligou o motor. — Sr. Fabiano, a Maia acabou de me ligar. O irmão dela se meteu numa confusão, parece que mandou uns caras baterem em alguém. — Informou ele. — Em quem? — Perguntou Fabiano. — Ela disse que foi num sujeito que se meteu onde não devia. A pessoa não corre risco de vida, levou uns machucados só. Mas a polícia já rastreou até a família Dias, e a Maia tá bem preocupada. — Explicou Rui, sem esconder nada. Fabiano acendeu um cigarro. A chama destacou o desenho rígido da sobrancelha dele por um instante. — Vai na delegacia e resolve isso. — Ordenou ele. … Fabiano tinha saído da Mansão Grande Venice na noite anterior. A notícia chegou aos ouvidos de Paula só na manhã seguinte. À mesa do café, Paula pensou em dizer alguma coisa para confortar Ivone, mas Ivone se antecipou, sorrindo enquanto colocava alguns pedaços de abacate no prato da avó: — Vó, vamos só comer direitinho. A gente não fala de coisa chata agora, porque ela estraga o apetite. Na noite passada, depois da ligação de Maia, Fabiano tinha ido embora, chamado por ela. Ivone não chegou a dormir no quarto de lua‑de‑mel dos dois. Ela voltou para o antigo quarto dela, aquele que ficava bem ao lado do quarto de Fabiano. Antes, Ivone sempre dava um jeito de ter algum pretexto para ir atrás de Fabiano. Ele se irritava com a insistência dela, mas, em todos esses anos, nunca tinha trocado de quarto. Depois que terminou o café com Paula, Ivone se preparou para ir embora. A perna ainda estava machucada, então ela não tinha condições de dirigir. Ela pediu ao mordomo que providenciasse um carro. Enquanto esperava, ela tirou da bolsa um tubo de pomada para desinchar. Ela tinha encontrado aquela pomada em cima da mesinha do corredor, do lado de fora do quarto, quando acordou de manhã. Era o mesmo tipo que Dulce tinha usado nela no condomínio Vida Doce. Ela não fazia ideia de quem tinha deixado ali. Quando Ivone chegou perto do jardim, ela parou. Ela levantou o rosto para encarar o ipê que se erguia à frente, com mais de dois andares de altura. Os ipês‑brancos de Cidade Uíge só floresciam em abril. Naquele dezembro, os galhos estavam completamente nus. Ela se lembrou do dia em que chegou à casa dos Moraes pela primeira vez, justamente na época em que os ipês‑rosas floresciam. Naquele ano, ela tinha sete anos, e Fabiano, doze. O sol batia forte no jardim. Fabiano estava parado sob o ipê, ouvindo o empregado apresentar a "garotinha que ia morar com eles". Ele lançou um olhar frio na direção de Ivone e se limitou a dizer: "Desde que ela não venha encher o meu saco, tudo bem." — Ivone, você tá mesmo de parabéns. O seu marido desapareceu e você ainda tem tempo pra ficar admirando uma árvore pelada que não tem nem folha. — A voz, carregada de ironia gelada, veio pelas costas. Ivone não precisou se virar para saber. Quem tinha chegado era o primo caçula de Fabiano, Carlos Moraes. Carlos e Fabiano nunca se deram bem. Ivone não tinha o menor interesse em conversar com ele. Ela apenas deu um passo à frente para ir embora. — Ei… — Carlos abriu o passo, ergueu o braço e bloqueou a frente dela, com um meio sorriso provocador. — Você não quer saber onde o Fabiano instalou a Maia pra morar? Os passos de Ivone pararam. Ao ver que ela tinha interrompido o movimento, Carlos sorriu de canto, andou devagar até ficar de frente para ela e a encarou de cima, erguendo a sobrancelha: — No fim das contas, você já tá casada com ele há três anos. O meu querido priminho é de uma frieza exemplar… Ivone enfiou as duas mãos nos bolsos e cortou a frase dele no meio: — O que acontece entre mim e o Fabiano diz respeito só a nós dois. Não tem nada a ver com você. Em vez de perder tempo cuidando da minha vida, você devia pensar em como vai fazer pra se manter em pé dentro da Moraes Capital. A frase entrou em Carlos como um espinho. O rosto dele endureceu. Ele agarrou o braço de Ivone com força e disparou, sarcástico: — "Entre vocês dois"? Você é que fantasia um casamento. Em algum momento o Fabiano tratou você como esposa? Foi como levar um tapa no meio do pátio. O constrangimento queimou o rosto de Ivone, e o coração dela se apertou com força. Todo mundo, em toda a família Moraes, sabia que Fabiano jamais tinha reconhecido Ivone como esposa de verdade. — Ele me tratar como esposa ou não, eu continuo sendo sua cunhada. Se você botar a mão em mim de novo, eu começo a gritar. Vamos ver quem corre por você. — Ivone puxou o braço com força e se soltou. Dentro da Mansão Grande Venice, Carlos realmente não tinha coragem de passar muito da linha. Assim que ela falou isso, ele ficou só ali, sob a sombra do ipê, lançando um olhar sombrio na direção dela. — No dia em que você descobrir tudo, eu quero ver a cara que você vai fazer. — Disse ele, por fim. Ivone não respondeu. Quando entrou no carro, ela levou a mão à perna esquerda, que também doía. — Senhora, vamos para a emissora? — Perguntou o motorista, em tom respeitoso. Era dia útil, e ele não sabia que Ivone tinha ganhado alguns dias de folga. — Vamos. — Respondeu ela. Ivone ainda tinha uma pauta de entrevista pela metade. E, como a cabeça dela estava um caos, um pouco de trabalho poderia, pelo menos, distrair. Na redação da emissora, Ivone era uma repórter sênior, focada em investigação social. Ela se especializava em desmascarar empresas suspeitas e estabelecimentos ilegais. Só nessa última frente, ela já tinha ajudado a tirar das mãos de quadrilhas uma quantidade considerável de adolescentes, meninos e meninas forçados à prostituição. Mal tinha chegado à redação, Ivone foi chamada pelo editor Edson. Ele fechou a porta da sala, pediu que ela se sentasse e ficou alguns segundos calado, medindo as palavras. Ao se deparar com o olhar dela, aberto e sinceramente confuso, ele suspirou: — Ivone, eu preciso te contar uma coisa. A gente já descobriu quem mandou te bater. Mas… — Eles têm muita força, né? — Ivone não pareceu nem um pouco surpresa. Para mandar espancar uma repórter, ou o sujeito era muito burro ou tinha costas largas demais. Edson colocou uma xícara de café em frente a ela, sobre a mesa. Em seguida, ele falou, com o rosto pesado: — Eu perguntei pra todo mundo que eu conheço. A pessoa que mandou te atacar foi o irmão da ex‑namorada do Fabiano. O próprio Fabiano foi lá e deu um jeito de livrar ele. E, de quebra, ainda tirou da reta os três caras que te bateram. Tem policial podre na delegacia que trabalha pra família Moraes… Tudo o que ele disse depois disso, Ivone quase não ouviu.
No terceiro ano de casamento, quando o irmão mais velho de Ethan Soares faleceu, Luiza Mello pediu o divórcio. Ethan franziu a testa, com uma expressão de pura incompreensão: — Só porque eu levei um tapa para proteger a Gabi? Gabi? Ele a chamava de forma tão íntima. Mas Gabriela Lopes era, claramente, a esposa de seu irmão mais velho. Luiza puxou os lábios num sorriso frio: — Sim, exatamente por isso. Como se fosse possível que um casamento fosse destruído por algo tão simples. A marca vermelha daquele tapa, dada no hospital, ainda era visível no rosto marcante de Ethan, intensificando sua expressão séria. Naquele momento, Ethan protegeu Gabriela de uma forma tão evidente que até a família Soares ficou surpresa. Todos, menos Luiza. Ela não demonstrou nem um pingo de surpresa. Três dias antes, era o aniversário de casamento de Ethan e Luiza. Ela havia preparado uma surpresa e pegado um voo para a cidade onde ele estava a trabalho. Porém, ao chegar, ouviu por acaso uma conversa entre ele e dois amigos. — Ethan, não me leve a mal, mas fugir todo ano na data do seu aniversário de casamento não é certo. Você está sendo injusto com o esforço e a dedicação da Luiza. O homem, normalmente tão elegante e sereno, tinha nos olhos um traço de tristeza: — Você acha que eu quero isso? Se eu não fizesse isso... Ela jamais acreditaria que, nesses anos todos, eu nunca me envolvi de verdade com a Luiza. — Ela? — O amigo, que parecia defender Luiza, demorou um segundo para entender, mas logo sua voz ganhou um tom de irritação e sarcasmo. — Tá falando da Gabriela? Ethan, você tá maluco? Vai esperar até a barriga da Gabriela ficar enorme na segunda gravidez pra finalmente cair na real? Mudando o tom, ele continuou: — E outra, você não tem medo de o Gustavo aparecer para te cobrar essa palhaçada? — Ele não vai. — Ethan acariciou os dedos, distraído. — Desde que me casei com a Luiza, os dois brigaram feio. Faz três anos que nem se falam e até se bloquearam no celular. Do lado de fora da sala, Luiza ouviu tudo. Apesar de manter a calma enquanto saía com passos firmes, seus dedos, ao lado do corpo, tremiam levemente. Ela sabia que Ethan tinha tido alguém especial em sua vida. Procurou por muitas respostas, mas ninguém jamais lhe disse quem era essa pessoa. Ela havia cogitado várias possibilidades, mas nunca imaginou que sua rival fosse Gabriela. E o pior: durante três anos, ela respeitou Gabriela como sua cunhada. Aquilo era humilhante demais. Ao sair do clube, uma chuva torrencial caía. Luiza, indiferente, deixou-se molhar completamente, como se não sentisse nada. Ela pegou um voo noturno de volta para Cidade A e, assim que chegou em casa, adoeceu. Ficou de cama por dois dias com febre alta e só começou a melhorar hoje. Mas, assim que conseguiu se levantar, recebeu a notícia de que Antônio Soares, irmão mais velho de Ethan, havia sofrido um acidente. Sete dias depois, o funeral de Antônio foi realizado em Cidade A. Nos últimos dias, Luiza mal dormiu duas ou três horas por noite na mansão da família Soares. Após o funeral, ao sair do cemitério, ela estava tão exausta que parecia que seu corpo andava à frente enquanto sua alma ficava para trás. O motorista já a esperava com o carro na entrada. Assim que entrou, Luiza fechou os olhos: — Joaquim, me leve para casa. — Não vai voltar para a Mansão dos Soares? — Não, acabou para mim. O funeral tinha terminado, mas os problemas da família Soares estavam longe de acabar. Antônio, o primogênito, sempre foi tratado como o centro do universo. Desta vez, sua morte foi resultado de um salto de paraquedas, forçado por Gabriela. O equipamento apresentou falha e ele caiu de uma altura fatal. Quando chegou ao hospital, não havia mais o que fazer. Os médicos não tentaram reanimá-lo, apenas prepararam seu corpo para o velório. A raiva da família Soares contra Gabriela ainda estava em ebulição. Luiza não tinha interesse em assistir a Ethan proteger outra mulher. Ela tinha suas próprias prioridades agora. Mas, assim que o carro começou a se mover, a porta de trás foi aberta de repente. Ethan estava do lado de fora, vestindo um terno preto sob medida, com sua postura alta e elegante. Seu rosto, normalmente impecável, carregava uma expressão rara de hesitação: — Luiza, você está indo para casa? — Sim. Mal Luiza respondeu, percebeu com o canto dos olhos que Gabriela se aproximava ao lado de Ethan, acompanhada por um garotinho. Era Michel Soares, filho de Gabriela e Antônio, um menino de quatro anos, gorduchinho e fofo. Antes que Luiza pudesse dizer qualquer coisa, Michel, com agilidade, subiu no carro, como se fosse a coisa mais natural do mundo, e disse sem cerimônia: — Luiza, leva eu e a mamãe pra casa, por favor! Luiza franziu levemente a testa e olhou para Ethan, buscando uma explicação. Ethan apertou os lábios e respondeu: — Meus pais ainda estão muito irritados. Vou deixar Gabi e Michel ficarem na nossa casa por um tempo. Como se temesse que ela recusasse, ele acrescentou: — Você quer ter filhos, né? Pode começar praticando com Michel. Luiza quase riu. Mas, considerando que estavam no cemitério, achou que não seria apropriado. Ethan estava deixando Gabriela e o filho dela em sua casa, enquanto ele voltava sozinho para a Mansão dos Soares para enfrentar a ira dos pais. Até que ele tinha coragem. Quando chegaram em casa, parecia que Ethan já havia avisado. A empregada Maia tinha preparado o quarto de hóspedes. Luiza ficou aliviada. Após tomar banho, desabou na cama e dormiu profundamente. Quando acordou, já eram nove da noite. Assim que pegou o celular, recebeu uma ligação de sua amiga. — O acordo de divórcio está pronto. Quer que eu envie para você dar uma olhada? — Obrigada, Lilian. — Ainda com a voz sonolenta, Luiza respondeu suavemente. — Não precisa me enviar. Só mande alguém trazer para mim. — Está com tanta pressa assim? Tem certeza disso? Lilian Martin, uma advogada experiente, já havia lidado com muitos casos e temia que Luiza estivesse agindo por impulso: — Ethan pode não ser o marido ideal, mas, de certa forma... Luiza acendeu a luz, sentou-se na cama e, com a mente mais clara, interrompeu: — Eu já decidi, Lilian. O Ethan se masturba vendo foto de outra mulher.
No terceiro ano de casamento, quando o irmão mais velho de Ethan Soares faleceu, Luiza Mello pediu o divórcio. Ethan franziu a testa, com uma expressão de pura incompreensão: — Só porque eu levei um tapa para proteger a Gabi? Gabi? Ele a chamava de forma tão íntima. Mas Gabriela Lopes era, claramente, a esposa de seu irmão mais velho. Luiza puxou os lábios num sorriso frio: — Sim, exatamente por isso. Como se fosse possível que um casamento fosse destruído por algo tão simples. A marca vermelha daquele tapa, dada no hospital, ainda era visível no rosto marcante de Ethan, intensificando sua expressão séria. Naquele momento, Ethan protegeu Gabriela de uma forma tão evidente que até a família Soares ficou surpresa. Todos, menos Luiza. Ela não demonstrou nem um pingo de surpresa. Três dias antes, era o aniversário de casamento de Ethan e Luiza. Ela havia preparado uma surpresa e pegado um voo para a cidade onde ele estava a trabalho. Porém, ao chegar, ouviu por acaso uma conversa entre ele e dois amigos. — Ethan, não me leve a mal, mas fugir todo ano na data do seu aniversário de casamento não é certo. Você está sendo injusto com o esforço e a dedicação da Luiza. O homem, normalmente tão elegante e sereno, tinha nos olhos um traço de tristeza: — Você acha que eu quero isso? Se eu não fizesse isso... Ela jamais acreditaria que, nesses anos todos, eu nunca me envolvi de verdade com a Luiza. — Ela? — O amigo, que parecia defender Luiza, demorou um segundo para entender, mas logo sua voz ganhou um tom de irritação e sarcasmo. — Tá falando da Gabriela? Ethan, você tá maluco? Vai esperar até a barriga da Gabriela ficar enorme na segunda gravidez pra finalmente cair na real? Mudando o tom, ele continuou: — E outra, você não tem medo de o Gustavo aparecer para te cobrar essa palhaçada? — Ele não vai. — Ethan acariciou os dedos, distraído. — Desde que me casei com a Luiza, os dois brigaram feio. Faz três anos que nem se falam e até se bloquearam no celular. Do lado de fora da sala, Luiza ouviu tudo. Apesar de manter a calma enquanto saía com passos firmes, seus dedos, ao lado do corpo, tremiam levemente. Ela sabia que Ethan tinha tido alguém especial em sua vida. Procurou por muitas respostas, mas ninguém jamais lhe disse quem era essa pessoa. Ela havia cogitado várias possibilidades, mas nunca imaginou que sua rival fosse Gabriela. E o pior: durante três anos, ela respeitou Gabriela como sua cunhada. Aquilo era humilhante demais. Ao sair do clube, uma chuva torrencial caía. Luiza, indiferente, deixou-se molhar completamente, como se não sentisse nada. Ela pegou um voo noturno de volta para Cidade A e, assim que chegou em casa, adoeceu. Ficou de cama por dois dias com febre alta e só começou a melhorar hoje. Mas, assim que conseguiu se levantar, recebeu a notícia de que Antônio Soares, irmão mais velho de Ethan, havia sofrido um acidente. Sete dias depois, o funeral de Antônio foi realizado em Cidade A. Nos últimos dias, Luiza mal dormiu duas ou três horas por noite na mansão da família Soares. Após o funeral, ao sair do cemitério, ela estava tão exausta que parecia que seu corpo andava à frente enquanto sua alma ficava para trás. O motorista já a esperava com o carro na entrada. Assim que entrou, Luiza fechou os olhos: — Joaquim, me leve para casa. — Não vai voltar para a Mansão dos Soares? — Não, acabou para mim. O funeral tinha terminado, mas os problemas da família Soares estavam longe de acabar. Antônio, o primogênito, sempre foi tratado como o centro do universo. Desta vez, sua morte foi resultado de um salto de paraquedas, forçado por Gabriela. O equipamento apresentou falha e ele caiu de uma altura fatal. Quando chegou ao hospital, não havia mais o que fazer. Os médicos não tentaram reanimá-lo, apenas prepararam seu corpo para o velório. A raiva da família Soares contra Gabriela ainda estava em ebulição. Luiza não tinha interesse em assistir a Ethan proteger outra mulher. Ela tinha suas próprias prioridades agora. Mas, assim que o carro começou a se mover, a porta de trás foi aberta de repente. Ethan estava do lado de fora, vestindo um terno preto sob medida, com sua postura alta e elegante. Seu rosto, normalmente impecável, carregava uma expressão rara de hesitação: — Luiza, você está indo para casa? — Sim. Mal Luiza respondeu, percebeu com o canto dos olhos que Gabriela se aproximava ao lado de Ethan, acompanhada por um garotinho. Era Michel Soares, filho de Gabriela e Antônio, um menino de quatro anos, gorduchinho e fofo. Antes que Luiza pudesse dizer qualquer coisa, Michel, com agilidade, subiu no carro, como se fosse a coisa mais natural do mundo, e disse sem cerimônia: — Luiza, leva eu e a mamãe pra casa, por favor! Luiza franziu levemente a testa e olhou para Ethan, buscando uma explicação. Ethan apertou os lábios e respondeu: — Meus pais ainda estão muito irritados. Vou deixar Gabi e Michel ficarem na nossa casa por um tempo. Como se temesse que ela recusasse, ele acrescentou: — Você quer ter filhos, né? Pode começar praticando com Michel. Luiza quase riu. Mas, considerando que estavam no cemitério, achou que não seria apropriado. Ethan estava deixando Gabriela e o filho dela em sua casa, enquanto ele voltava sozinho para a Mansão dos Soares para enfrentar a ira dos pais. Até que ele tinha coragem. Quando chegaram em casa, parecia que Ethan já havia avisado. A empregada Maia tinha preparado o quarto de hóspedes. Luiza ficou aliviada. Após tomar banho, desabou na cama e dormiu profundamente. Quando acordou, já eram nove da noite. Assim que pegou o celular, recebeu uma ligação de sua amiga. — O acordo de divórcio está pronto. Quer que eu envie para você dar uma olhada? — Obrigada, Lilian. — Ainda com a voz sonolenta, Luiza respondeu suavemente. — Não precisa me enviar. Só mande alguém trazer para mim. — Está com tanta pressa assim? Tem certeza disso? Lilian Martin, uma advogada experiente, já havia lidado com muitos casos e temia que Luiza estivesse agindo por impulso: — Ethan pode não ser o marido ideal, mas, de certa forma... Luiza acendeu a luz, sentou-se na cama e, com a mente mais clara, interrompeu: — Eu já decidi, Lilian. O Ethan se masturba vendo foto de outra mulher.
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